Galeria Danielian apresenta a coletiva AINDA BEM e a individual As feras/Às feras, de Ana Neves; exposições que atravessam crítica institucional, memória, território e disputas simbólicas na arte contemporânea brasileira.

A galeria Danielian apresenta, até 11 de julho, duas exposições que atravessam questões centrais da produção artística contemporânea brasileira: os mecanismos históricos de exclusão que moldaram a ideia de arte no país e as relações entre corpo, território e pertencimento.

Reunindo a coletiva AINDA BEM, com curadoria de Clarissa Diniz, e a individual As feras/Às feras, de Ana Neves, sob curadoria de Ariana Nuala, a programação da galeria propõe leituras críticas e sensíveis sobre memória, representação e identidade no Brasil contemporâneo.

Partindo da frase “Ainda bem que este tipo de arte um dia irá acabar”, do artista Gustavo Speridião, a coletiva AINDA BEM transforma o espaço expositivo em um campo de tensão simbólica. A mostra reúne 28 artistas dos séculos XIX, XX e XXI em um percurso que confronta o imaginário burguês da arte brasileira com produções que questionam os padrões históricos de poder, raça, gênero e classe inscritos na formação cultural do país.

Manuel Messias dos Santos, Nossa lágrima

Ao aproximar retratos acadêmicos, pinturas associadas ao refinamento das elites brasileiras e obras contemporâneas que ironizam ou desmontam esse legado, a exposição evidencia permanências históricas ainda presentes nas estruturas do sistema artístico. O diálogo entre tempos distintos revela como concepções estéticas vinculadas à tradição europeia ajudaram a consolidar modelos de exclusão que seguem atravessando a produção e a circulação da arte.

Participam da mostra nomes como Álvaro Seixas, Cláudia Hersz, Lenora de Barros, Nati Canto, Pedro Vinicio, Victor Arruda, Rodolfo Amoedo, Louis Auguste Moreau e Thales Pomb, além do perfil A Vida de Tina & New Memeseum. Mais do que revisar a história da arte brasileira, AINDA BEM propõe um deslocamento crítico sobre os modos como imagens e instituições continuam produzindo hierarquias e formas de representação.

Chico Cunha, O Artista e o Inferno, 2022

Também em cartaz na Danielian, a individual As feras/Às feras apresenta dez obras inéditas de Ana Neves entre desenhos e pinturas que investigam a construção do ser humano enquanto consciência e corpo. Em suas composições, figuras híbridas unem elementos da fauna, da flora e de objetos cotidianos, criando cenas atravessadas por experiências de deslocamento, memória e trânsito.

Ana Neves, Acreditar, 2024

Símbolos recorrentes como o canavial, a onça, o boi e estruturas semelhantes a pontes remetem à Zona da Mata pernambucana, região onde a artista vive e trabalha, ao mesmo tempo em que evocam questões ligadas à resistência e ao pertencimento. Sua produção parte de um imaginário profundamente ligado ao território, mas recusa interpretações fixas, construindo imagens em constante estado de transformação.

Com formação também ligada à literatura, Ana Neves desenvolve uma prática em que palavra e imagem coexistem em tensão. As linhas insistentes de seus desenhos parecem retornar continuamente sobre a superfície, criando uma sensação de movimento e instabilidade. No texto curatorial, Ariana Nuala observa que as obras parecem feitas “sob pressão”, em um processo no qual a matéria se acumula ou ameaça desaparecer.

Ana Neves, A isso me refiro quando digo vermelho, 2024

A artista Ana Neves vem se consolidando como um dos nomes de destaque da nova cena contemporânea brasileira. Entre suas exposições recentes estão Tropical Trópico: Aqui Tudo Derrete, apresentada na Torre Malakoff, além de participações em mostras no Museu Nacional da República e no CCBB São Paulo.

Ao apresentar simultaneamente AINDA BEM e As feras/Às feras, a Danielian aproxima pesquisas que, por caminhos distintos, refletem sobre disputas simbólicas, pertencimento e memória. Seja no enfrentamento direto às estruturas históricas da arte brasileira ou na elaboração poética de experiências ligadas ao território e ao corpo, as duas exposições afirmam a arte contemporânea como espaço de questionamento e reinvenção sensível.


SERVIÇO: Mostras AINDA BEM e As feras/Às feras ficam em cartaz até 11 de julho de 2026 na Danielian, nos Jardins, em São Paulo. As exposições têm entrada gratuita e podem ser visitadas de segunda a sexta, das 11h às 19h, e aos sábados, das 11h às 15h. Mais informações estão disponíveis no site Danielian e no Instagram @danielian_galeria.

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Publicado por:Philos

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